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Além dos juros: quem decide o desenvolvimento brasileiro?

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O debate sobre a Selic expõe uma questão maior: o Brasil quer apenas administrar seus desequilíbrios ou construir as condições para superá-los?

Quando um instrumento vira uma estratégia

A taxa básica de juros tornou-se o instrumento mais visível da política econômica brasileira. Diante da inflação, o Banco Central eleva a Selic, encarece o crédito e procura moderar o consumo e o investimento. O mecanismo é conhecido, mas seus custos frequentemente ficam em segundo plano: projetos adiados, empresas financiadas a taxas elevadas, famílias endividadas e maior despesa com a parcela da dívida pública sensível aos juros.

O problema não é negar a utilidade da política monetária. É confundir um instrumento de estabilização com uma estratégia de desenvolvimento. Quando a inflação nasce de choques de energia, alimentos, câmbio ou gargalos produtivos, conter a demanda pode amenizar a propagação dos aumentos de preços, mas não elimina necessariamente suas causas. Pior: juros persistentemente altos podem dificultar investimentos que ampliariam a oferta no futuro.

Essa contradição motivou André Lara Resende a recolocar no debate a relação entre Selic, dívida pública e crescimento [1].

A economia não cabe numa única alavanca

Lara Resende propôs um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para estabelecer metas coordenadas e uma trajetória de convergência para juros menores. A proposta provocou reações intensas: seus críticos receiam perda de autonomia do Banco Central, desvalorização cambial e deterioração das expectativas [2]. O economista esclareceu que não defende um tabelamento arbitrário dos juros, embora sua proposta inclua limites e metas para a atuação monetária [3].

A controvérsia revela um problema maior. Política monetária, orçamento público, câmbio e política industrial afetam uns aos outros, mas nem sempre são formulados como partes de uma estratégia comum. Independência operacional do Banco Central pode conviver com objetivos públicos definidos de forma transparente; o desafio está em preservar a capacidade técnica de reação aos riscos.

Também merecem exame instrumentos complementares, como ajustes tributários temporários para conter pressões específicas de preços. Uma espécie de “bandeira tributária” poderia modular a demanda sem recorrer exclusivamente aos juros. Mas seu efeito dependeria do desenho, dos prazos e de quem suportaria o custo. Não há solução gratuita: a questão é combinar instrumentos e avaliar suas consequências.

O mercado também faz política

Uma mudança dessa magnitude não ocorre em laboratório. Juros menores alteram o retorno dos ativos, influenciam fluxos de capitais e podem pressionar o câmbio. Para uma economia que importa máquinas, insumos e tecnologia, uma desvalorização persistente se transmite aos preços e pode comprometer os próprios objetivos da reforma.

É necessário distinguir comportamentos. Nem toda saída de capital é uma conspiração contra o governo: investidores também respondem a riscos genuínos. Por outro lado, decisões aparentemente técnicas distribuem ganhos e perdas e, portanto, possuem dimensão política. Quem ganha com juros elevados? Quem paga pelo crédito caro? Quem arca com uma eventual crise cambial?

Reservas internacionais podem suavizar movimentos desordenados, mas são finitas e funcionam como seguro contra choques externos. Consumir esse patrimônio para sustentar uma política sem credibilidade seria trocar um problema por outro.

Por isso, mobilização popular e legitimidade democrática importam, mas não substituem planejamento, instituições e uma transição macroeconômica convincente.

Investir para produzir, produzir para crescer

O centro de uma estratégia desenvolvimentista deveria ser a ampliação da capacidade produtiva. Ferrovias, portos, energia, saneamento, fábricas, máquinas, pesquisa e qualificação profissional não apenas movimentam recursos: quando bem escolhidos, reduzem custos, elevam a produtividade e criam novas oportunidades econômicas.

Existe, porém, uma questão de tempo. Construir infraestrutura e instalar equipamentos exige trabalhadores, aço, cimento, energia e crédito agora. O aumento da oferta chega depois. Portanto, investimento também pode pressionar a inflação no curto prazo, especialmente quando a economia já opera perto de seus limites. A prioridade deve recair sobre projetos que eliminem gargalos concretos, tenham retorno social verificável e possam ser executados com disciplina.

Investimento e consumo das famílias tampouco são adversários. O consumo sustenta mercados; a produção cria empregos e renda que alimentam esse consumo. A diferença está em evitar um ciclo no qual a demanda cresce sem expansão correspondente da oferta doméstica, ampliando importações e vulnerabilidades externas.

Não se trata de reduzir proteção social para financiar máquinas. Trata-se de reconhecer que a prosperidade duradoura exige tanto inclusão quanto capacidade de produzir. Um Estado desenvolvimentista eficiente não é aquele que gasta indiscriminadamente, mas aquele que coordena investimentos, cobra resultados e corrige fracassos.

A lição que as potências nem sempre ensinam

Em 1791, Alexander Hamilton defendia que os Estados Unidos promovessem sua indústria por meio de incentivos e ação pública [4]. Décadas depois, Friedrich List argumentaria que países em estágios diferentes de industrialização não competem em condições equivalentes e que a proteção temporária pode favorecer a aprendizagem produtiva [5].

Essas ideias contrastam com parte da agenda associada ao Consenso de Washington, sistematizada por John Williamson, que valorizava disciplina fiscal, liberalização e privatizações [6]. Mas a oposição não deve virar caricatura: o documento original também reconhecia a importância da educação, da saúde e do investimento em infraestrutura, além de admitir exceções à liberalização comercial.

A lição histórica não é que toda abertura fracassa ou que qualquer subsídio produz indústria competitiva. É que desenvolvimento exige instituições capazes de identificar capacidades estratégicas, combinar concorrência e apoio público e exigir contrapartidas. Proteção permanente sem produtividade pode apenas transferir recursos da sociedade para grupos privilegiados.

O Brasil precisa superar tanto a crença no mercado autorregulado quanto a expectativa de que uma decisão estatal, por si só, produzirá transformação.

Desenvolvimento para quem?

Há, finalmente, uma questão que vai além da Selic e do próprio desenvolvimentismo. Uma economia industrializada pode continuar concentrando renda, riqueza e poder. O fortalecimento de grandes empresas nacionais não significa automaticamente melhores salários, serviços públicos ou participação popular nas decisões.

Isso distingue o projeto de desenvolver o capitalismo brasileiro da ambição de transformar suas relações distributivas. Os dois objetivos podem compartilhar políticas de investimento e inovação, mas não são equivalentes.

O critério decisivo deve ser a capacidade de converter produtividade em bem-estar coletivo. Estabilidade monetária importa, assim como responsabilidade fiscal e confiança institucional; nenhuma delas, porém, deveria ser confundida com a finalidade última da economia.

O Brasil não precisa apenas de juros menores. Precisa saber que país pretende construir quando eles baixarem.


Referências

  • [1] Lara Resende, André. Eu Acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos. Um Cético Esperançoso, 25 de setembro de 2026. Ler artigo original.
  • [2] Nassif, Tamara; Salomão, Alexa; Gavras, Douglas; Seabra, Catia. Proposta de Lara Resende para limitar Selic assusta mercado; Durigan nega discussão no governo. Folha de S.Paulo, 1º de novembro de 2026. Ler reportagem.
  • [3] Kupfer, José Paulo. 'Falar em tabelamento de juros é uma distorção de má-fé', diz Lara Resende. UOL Economia, 3 de novembro de 2026. Ler entrevista.
  • [4] Hamilton, Alexander. Report on Manufactures. Relatório apresentado ao Congresso dos Estados Unidos, 5 de dezembro de 1791. Consultar documento histórico.
  • [5] List, Friedrich. The National System of Political Economy. 1841. Obra sobre desenvolvimento das forças produtivas e proteção da indústria nascente. Consultar excertos históricos.
  • [6] Williamson, John. What Washington Means by Policy Reform. In: Latin American Adjustment: How Much Has Happened? Institute for International Economics, 1990. Consultar publicação.

O corpo do artigo contém aproximadamente 1.000 palavras, excluindo título, subtítulo e referências. As fontes sobre Lara Resende e os textos históricos foram conferidos.

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