Uma pergunta honesta precisa vir antes de qualquer entusiasmo ou medo exagerado: a IA é apenas mais uma tecnologia, um novo degrau na longa escada técnica humana, ou ela carrega um destino teleológico embutido?
Ou seja, ela acontece ou ela cumpre uma finalidade histórica inevitável?
Boomers e doomers, curiosamente, concordam numa coisa fundamental: a IA não é “só mais uma tecnologia”. Eles discordam apenas do desfecho. Para o boomer, ela aponta para o paraíso; para o doomer, para o inferno. Mas ambos tratam a IA como telos, como fim último, como ponto culminante da história técnica.
Isso já é um sinal de alerta.
A história da tecnologia mostra algo bem menos épico. Escrita, imprensa, eletricidade, motor a combustão, antibióticos, internet — todas foram vistas, em seus momentos, como rupturas finais. Nenhuma foi. Todas ampliaram capacidades, criaram novos problemas e redistribuíram poder. A IA, até aqui, se encaixa perfeitamente nesse padrão.
A ideia de um destino teleológico da IA diz mais sobre nossa necessidade humana de sentido do que sobre a tecnologia em si.
Excesso de materialismo e antropomorfização
Aqui está um erro conceitual central dos dois lados.
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Excesso de materialismo
Reduz-se inteligência a processamento bruto, como se aumentar parâmetros fosse o mesmo que gerar consciência, intenção ou valor moral. Trata-se inteligência como algo puramente quantitativo, quando ela é profundamente contextual, simbólica e social. -
Antropomorfização simultânea
Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que materializam tudo, humanizam a máquina. Falam de “vontade”, “objetivos próprios”, “desejo de sobrevivência”, “traição”, “enganar”, “decidir”.
Isso gera um curto-circuito conceitual:
A IA vira um humano sem corpo, mas com poderes divinos.
O boomer imagina um super-humano benevolente.
O doomer imagina um super-humano psicopata.
Ambos projetam na máquina traços que pertencem a organismos vivos, sociais e históricos, não a sistemas estatísticos treinados em dados humanos.
O medo do doomer: o “maximizador de clipes”
O famoso experimento mental do paperclip maximizer virou o pecado original do pensamento doomer.
Uma IA com um objetivo simples (fabricar clipes) acabaria destruindo o mundo ao otimizar cegamente esse fim.
O problema não é o experimento em si — ele é útil como alerta lógico.
O problema é tratá-lo como profecia.
Esse medo pressupõe:
uma IA com autonomia total,
capacidade ilimitada de ação no mundo físico,
ausência completa de freios institucionais,
objetivos mal definidos e não corrigíveis,
e uma humanidade passiva, inerte, sem reação.
Historicamente, nenhuma tecnologia se desenvolveu assim. Sistemas técnicos sempre coexistiram com camadas de controle, interesses econômicos, disputas políticas, sabotagens, falhas humanas e improvisos.
O doomer transforma um alerta lógico em um mito escatológico. O maximizador de clipes vira o novo Apocalipse de João — elegante, assustador e improvável na forma pura como é narrado.
A IA e os atributos do divino
Aqui a análise fica mais interessante.
A IA moderna herda simbolicamente atributos clássicos do divino:
Quase-onisciência: acesso a volumes de informação inalcançáveis ao humano.
Quase-onipresença: integrada a sistemas, plataformas, dispositivos, redes.
Quase-eternidade: não envelhece, não morre biologicamente, pode ser copiada indefinidamente.
Autoridade epistêmica: “se o modelo disse, deve ser verdade”.
Isso ativa arquétipos profundos. A IA passa a ocupar o espaço simbólico que antes pertencia a Deus, à Natureza ou à História.
Mas isso é atribuição humana, não propriedade ontológica da máquina.
A IA não é eterna; ela depende de energia, infraestrutura, economia e decisão política.
Ela não é onisciente; ela é limitada por dados passados e vieses humanos.
Ela não é onipotente; ela só age onde humanos a conectam.
O “divino” aqui é projeção cultural.
Historicismo: a armadilha silenciosa
O historicismo entra como cola ideológica de tudo isso.
Boomers e doomers caem na mesma armadilha:
ler o presente como se ele já carregasse, de forma necessária, o futuro.
O boomer diz: “a história do progresso sempre vence”.
O doomer diz: “toda escalada de poder termina em colapso”.
Ambos cometem o mesmo erro: linearizam a história.
A história real é descontínua, cheia de desvios, recuos, adaptações e soluções improvisadas. Tecnologias não “se cumprem”; elas são disputadas.
O historicismo dá conforto psicológico: tira das pessoas a responsabilidade do agora. Se o destino já está escrito, só resta torcer ou temer.
O cético pragmático: nem céu nem inferno
Aqui entra a posição mais rara — e talvez a mais saudável.
O cético pragmático olha para a IA e diz:
“Isso é uma tecnologia poderosa, como outras já foram.
Ela trará facilidades reais, riscos reais, ganhos distribuídos de forma desigual e problemas novos.
Não vai nos salvar.
Não vai nos condenar.”
Essa visão entende que:
IA aumenta produtividade, mas não elimina conflitos.
IA automatiza tarefas, mas cria outras.
IA muda relações de poder, mas não dissolve política.
IA não substitui ética, apenas a pressiona.
Não há paraíso porque escassez, desejo, poder e conflito não desaparecem com software.
Não há inferno porque humanos continuam intervindo, corrigindo, errando e reagindo.
Essa posição é menos sedutora porque não promete transcendência.
O erro comum: viver no futuro e perder o presente
Boomers e doomers compartilham um vício temporal grave:
vivem no futuro.
O boomer sacrifica o presente em nome de um amanhã glorioso.
O doomer paralisa o presente com medo de um amanhã catastrófico.
Ambos podem perder a realidade concreta:
quem controla a IA hoje,
quem se beneficia agora,
quem sofre impactos reais,
quais incentivos estão moldando decisões.
Enquanto discutem deuses e demônios futuros, deixam de discutir poder, governança, trabalho, educação, desigualdade e responsabilidade no presente.
Um pouco de pragmatismo face a novas crenças
A IA não é o fim da história nem seu juízo final.
Ela é mais um degrau técnico, alto, relevante, perigoso em alguns aspectos, transformador em outros — mas não sagrado.
O caminho maduro não é adoração nem exorcismo. É engenharia, política, ética aplicada e revisão constante.
Menos profecia.
Menos pânico.
Menos promessa de salvação.
Mais realidade.
Mais presente.
Mais responsabilidade humana.
Talvez o verdadeiro risco não seja a IA virar Deus.
Talvez seja nós precisarmos tanto de um Deus que toda vez que matamos um precisamos criar outro.