Rodrigo Palhano 14/05/2026 MD Sandbox

MENTIRA COLETIVA: Essa tal verdade.

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Conteudo

Antes de falar de mentira coletiva, é preciso falar primeiro da verdade. Boa parte das discussões contemporâneas sobre fake news, desinformação, bolhas digitais e manipulação pública tropeça justamente aí: todo mundo acusa o outro de mentir, mas pouca gente se pergunta o que está chamando de verdade; ou de verdadeiro.

Essa é uma das entradas centrais do livro Mentira Coletiva: compreender que a mentira coletiva não nasce apenas da falsificação deliberada de fatos, mas da confusão entre abstração, realidade, conhecimento, linguagem, consenso, opinião e desejo.

A verdade, no senso comum, costuma ser tratada como algo simples: ou uma coisa é verdadeira, ou é falsa. A verdade é o que é, já a mentira, o que não é. Mas a vida humana raramente opera nesse binário limpo. Vivemos cercados por fatos, interpretações, memórias, consensos, modelos, símbolos, estatísticas, imagens e narrativas. E é nesse jardim confuso que a mentira coletiva floresce.

Não porque as pessoas sejam necessariamente más, burras ou manipuladas o tempo todo. Essa explicação é confortável demais. A mentira coletiva é mais íntima e mais complexa. Ela nasce no próprio modo como habitamos a realidade: misturando experiência concreta, abstração, linguagem, memória, pertencimento e desejo.

Antes de entender a mentira, portanto, precisamos reaprender essa tal verdade.

Comecemos pela realidade.

Existe uma realidade concreta: corpo, chão, fome, pedra, chuva, calor, distância, dor. É o mundo que resiste à nossa vontade. A pedra não muda de opinião porque alguém fez um post indignado. A lei da gravidade não aceita recurso no grupo de WhatsApp.

Mas também existe uma realidade abstrata. Amor, justiça, dinheiro, Estado, reputação, honra, pecado, fronteira, propriedade. Nada disso pode ser tocado como se toca uma mesa. Você não colhe liberdade como se colhe caju. Ainda assim, essas abstrações organizam guerras, casamentos, prisões, heranças, economias e vidas inteiras.

Ninguém tropeça numa “justiça” caída na calçada, mas muita gente pode ser condenada em nome dela, com efeitos bastante concretos em sua vida.

O erro começa quando tratamos apenas o concreto como real. Mas o erro oposto é igualmente perigoso: viver como se tudo fosse construção simbólica sem consequência material, como se tudo fosse relativo. A vida humana acontece no meio. Moramos numa realidade vivida onde corpo e linguagem, matéria e símbolo, experiência e interpretação estão sempre presentes e misturados.

Esse é o primeiro ponto importante: a realidade humana não é apenas aquilo que está diante dos olhos. É também aquilo que uma coletividade sustenta como válido, legítimo, desejável ou proibido.

É aí que entra o conhecimento.

Conhecimento não é simples acumulo de informação. É experiência organizada para orientar ação. Saber que fogo queima evita que cada geração precise colocar a mão na chama para aprender do pior jeito. Conhecimento é memória acumulada, ferramenta de sobrevivência.

Mas nem todo conhecimento é verdadeiro. Há conhecimento útil, falso, provisório, simbólico, prático, científico, ritual. Há conhecimentos que orientam bem a vida. Há outros que apenas organizam ilusões com boa aparência. Aqui jaz a grande utilidade do que chamamos de verdade: ela entra como uma peneira, imperfeita, mas necessária.

A verdade não elimina toda incerteza. Não nos dá acesso puro e total ao real. Mas ajuda a separar o que merece confiança do que precisa ser revisado, abandonado ou tratado com cautela.

Sem essa peneira, todo conhecimento vira ruído. E quando tudo vira ruído, a narrativa mais confortável vence. Não a mais verdadeira. A mais confortável ou a mais eloquente, muitas vezes.

E quais são as verdades?

Na filosofia, uma das teorias mais antigas sobre o que é a verdade; ou verdadeiro mais precisamente, é a da verdade por correspondência. Uma afirmação é verdadeira quando corresponde a um fato. Se digo que há um livro sobre a mesa, e há mesmo um livro sobre a mesa, a frase é verdadeira. Simples, direto, aristotélico.

Essa teoria tem força porque impede que tudo vire opinião. Ela ancora a verdade no mundo concreto. Mas há problemas. Como verificar afirmações sobre justiça, amor, valor, intenção, beleza ou dignidade? Coisas abstratas... Nem tudo que importa pode ser conferido como objeto em cima da mesa.

Então temos outra corrente: a verdade por coerência. Algo parece verdadeiro quando se encaixa num sistema de crenças já aceito. Uma ideia faz sentido porque conversa com outras ideias que acreditamos.

Essa teoria ajuda a entender por que certos grupos rejeitam evidências externas: elas quebram a coerência interna da comunidade. O perigo é claro: um sistema pode ser coerente e delirante ao mesmo tempo. Uma teoria conspiratória bem montada parece um castelo lógico; só que construído em terreno duvidoso.

Há ainda a verdade pragmática: verdadeiro seria aquilo que funciona, aquilo que produz efeitos práticos e úteis para nossa sobrevivência . Essa visão tem valor porque aproxima verdade de consequência, tirando a discussão da pura especulação filosófica e trazendo para o mundo. Mas também exige cuidado. Funciona para quem? Por quanto tempo? Com qual custo?

Uma mentira pode funcionar socialmente. Pode unir um grupo, vencer uma eleição, vender um produto ou acalmar uma angústia. Nem por isso vira verdade necessariamente.

As verdades que usamos para viver

Além dessas grandes teorias clássicas, há formas de verdade que usamos no cotidiano sem perceber.

Existem verdades subjetivas. “Eu gosto do meu gato” é uma verdade restrita à experiência do sujeito. Ninguém além dele próprio tem condições de julgar de forma definitiva se aquilo é verdadeiro. Não precisa ser universal para ser verdadeiro neste caso, pode ser particular. Já “vai chover amanhã porque estou sentindo” não é verdade subjetiva; é opinião sobre um evento externo. Ou meteorologia freestyle.

Há verdades contextuais. A mesma rua pode ser subida para quem está embaixo e descida para quem está em cima. As duas descrições podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, porque dependem do ponto de vista. Quantas discussões começam por conta de que não percebemos esse tipo de situação?

Há também as verdades consensuais. O dinheiro é o exemplo clássico. Uma nota vale porque uma comunidade inteira sustenta aquele valor. Fora do consenso, ela vira papel colorido com anotações numéricas.

Essas verdades não são falsas apenas porque dependem de sujeito, contexto ou consenso. Esse é o ponto. Uma verdade pode ser localizada, parcial, provisória ou convencional e ainda assim organizar a realidade de modo eficaz. Deveria ser essa toda a sua utilidade.

O problema começa quando esquecemos sua natureza. Quando uma verdade subjetiva tenta virar universal. Quando uma verdade consensual finge ser tão natural quanto um pé de caqui. Quando uma verdade contextual se apresenta como universal.

É nesse esquecimento que a mentira coletiva começa a se formar.

Ciência, paradigma e revisão

Há também verdades provisórias, especialmente na ciência. E aqui Thomas Kuhn se torna fundamental.

A ciência não caminha apenas acumulando verdades eternas como quem empilha tijolos. Ela opera dentro do que ele chamou de paradigmas: molduras de pensamento que definem quais perguntas fazem sentido, quais métodos são aceitos e quais respostas parecem plausíveis.

Um paradigma científico funciona enquanto organiza evidências, resolve problemas e permite avançar. Mas, com o tempo, surgem anomalias: fatos que não se encaixam, medições incômodas, novos fenômenos físicos ou sociais resistentes às soluções atuais.

Quando essas anomalias se acumulam, o paradigma entra em crise. Uma nova moldura pode surgir. Não é apenas uma resposta que muda. Muda a própria maneira de perguntar.

Lee McIntyre ao tentar dar solução para pergunta da demarcação científica, que no fundo é uma pergunta sobre verdade, conclui que científico não é algo que siga um determinado método exatamente, científico é mais uma postura diante do erro, mais que um método é uma atitude.

Penso que essa seja a grande força da ciência: ela não promete nunca errar. Ela promete levar o erro a sério.

Isso importa porque muita gente usa a provisoriedade da ciência como desculpa para relativizar tudo. É o velho argumento tosco: “a ciência já errou antes, então meu primo no Telegram também pode estar certo”. Não, amigo. Errar com método não é a mesma coisa que inventar com convicção.

A ciência muda porque presta contas ao real. A mentira coletiva muda — quando muda — porque precisa preservar o tecido simbólico que a sustenta.

Verdades funcionais e a revelação da mentira coletiva

Depois de subir esses degraus, podemos falar em verdades funcionais.

Uma verdade funcional não é uma previsão, nem uma opinião útil, nem uma mentira que “funcionou” (também conhecido como "cagada") . Não é isso. É uma afirmação, modelo ou consenso com aderência suficiente ao real, ao contexto ou ao pacto social para orientar ações, decisões e formas de convivência com sucesso, desde que permaneça aberta à revisão.

Quando dizemos que o fogo queima, que determinada ponte suporta certo peso, que uma nota de cem reais vale dentro de uma economia que reconhece esse valor, ou que certo modelo científico explica bem um fenômeno até que surjam evidências melhores, estamos lidando com verdades funcionais. Não absolutas. Não eternas. Mas confiáveis o bastante para organizar a vida e nos ajudar a tomar decisões no nosso dia-a-dia.

A verdade funcional, portanto, não substitui as outras formas de verdade. Ela as reúne no modo como efetivamente vivemos. Ela se apoia em todas elas. É o nome prático para esse conjunto de verdades parciais, subjetivas, contextuais, consensuais, provisórias e verificáveis que usamos para atravessar o mundo sem precisar resolver a metafísica inteira antes de decidir o que tomar no café da manhã.

Mas aqui está o ponto decisivo: nem tudo que funciona é verdade funcional. Uma mentira também pode funcionar. A diferença é que a verdade funcional preserva algum compromisso com o real, ou ao menos reconhece o pacto que a sustenta. A mentira começa quando esse compromisso é apagado.

Nietzsche já alertava que a própria linguagem é uma armadilha. A palavra não é a coisa em si. A palavra “fogo” não queima. A palavra “dor” não dói. Toda linguagem reduz o mundo para torná-lo apreensível, pensável e comunicável. Quando dizemos “árvore”, apagamos as diferenças entre ipê, mangueira, pinheiro, eucalipto e bonsai para ganhar eficiência mental, é uma redução da realidade, da coisa em si. A linguagem nos dá o mundo, mas também o mutila.

A tecnologia amplia esse processo. Cada nova tecnologia de comunicação aumenta a distância entre experiência concreta e representação abstrata. Da fala à escrita, da imprensa à televisão, da internet à inteligência artificial, o abstrato ganha escala, velocidade e autonomia.

É nesse ponto que a mentira coletiva aparece.

Mas não como um demônio externo. Não como uma força maligna pairando sobre pessoas inocentes. A mentira coletiva é mais desconfortável justamente porque é mais íntima: ela é a realidade vivida quando esquecemos de que vivemos entre camadas de verdade, convenção, linguagem, crença, desejo e invenção.

A mentira coletiva não é apenas aquilo que alguém inventa para enganar os outros. Ela é também o ambiente simbólico que todos habitamos, onde verdades funcionais, consensos sociais, narrativas de pertencimento, interpretações parciais e mentiras deliberadas convivem no mesmo tecido.

O problema não é que esse tecido exista. Sem ele, não haveria sociedade. O problema é não enxergá-lo. É tomar toda abstração como fato bruto. É tratar toda narrativa como verdade natural. É mergulhar tão profundamente no abstrato e esquecer-se de voltar à tona. Esquecer que grande parte do que chamamos de realidade depende de acordos, palavras, instituições, tecnologias e repetições coletivas.

Por isso, antes de perguntar “quem está mentindo?”, talvez devamos perguntar: que ideia de verdade estamos defendendo? Estamos falando de correspondência, coerência, consenso, contexto, subjetividade, ciência, linguagem ou função prática? Não estaríamos olhando para o mesmo fenômeno a partir de camadas diferentes?

Sem essa pergunta, combatemos a mentira com slogans. E slogan contra mentira é como guarda-chuva de frevo em dia de tempestade: bonito na foto, inútil na rua.

A verdade não é uma posse. É uma prática. Exige método, humildade, revisão, linguagem cuidadosa, contato com o concreto e disposição para mudar de ideia.

A mentira coletiva precisa ser denunciada, sim. Mas denunciar não para demonizar, mas para revelar. Trazer luz para o ponto onde verdade e mentira coexistem de forma mais complexa do que gostaríamos de admitir.

Antes de entender a mentira, precisamos reaprender essa tal verdade.